Com exceção das últimas 46 tribos
de caçadores-coletores, a raça humana se fez dependente de uma atividade que
está destruindo o planeta: a agricultura. Esse não é um plano com futuro, e
levará o planeta ao esgotamento total. Em números, uma temporada de plantação
destrói cerca de dois mil anos de solo. O que está se esgotando é, também, as
águas fósseis; precisamos usar um equipamento de extração de petróleo para
extrair água, o que significa que os lençóis d’água estão muito além da
profundidade em que as pessoas comuns podem alcançar, e esse é um dos motivos
pelos quais pessoas estão abandonando suas terras no Paquistão e na Índia. Você
derruba florestas, arranca a pradaria, seca as zonas úmidas, e o que deveria
ser um habitat de milhões de criaturas fazendo o trabalho básico da vida, se
torna um campo seco com o único propósito de servir à vida humana. É, também,
um esgotamento de espécies e de ecossistemas inteiros. Hoje, cientistas debatem
se ¹/³ ou metade dos mamíferos estará extinta até o ano de 2050. Na verdade,
alguns já debatem sobre a possibilidade de não existir vida no planeta no fim do século. Vivemos em uma cultura que devora
com uma apropriação profunda e que está transformando o planeta em pó.
Existem três sistemas sobrepostos
que criaram esse sistema de destruição. O primeiro é chamado civilização; isso é, basicamente,
pessoas morando em cidades. Mas o que isso realmente significa são pessoas
vivendo em densidades que são grandes demais para a terra sustentar. Portanto,
a comida, a água, a energia, tudo precisa vir de algum outro lugar. Desse ponto
em diante, essa sociedade depende de imperialismo e genocídio. Porque ninguém,
voluntariamente, cede suas terras, sua água, suas árvores. Mas já que a cidade
acabou com seus recursos, ela precisa consegui-los em outro lugar. E isso,
essencialmente, resume os últimos dez mil anos em duas frases. A civilização,
como a conhecemos, é a forma mais destrutiva de desenvolvimento humano.
Há aproximadamente 100 mil anos
atrás, A Explosão Criativa, nome dado
por alguns paleontólogos, aconteceu. E 50 mil anos atrás, tínhamos a cultura
humana moderna. As pessoas faziam roupas de pele, bijuterias de ossos,
instrumentos musicais, técnicas de caça muito sofisticadas, e arte. E o que estávamos
pintando?
A segunda mais famosa obra de arte é chamada
Vênus de Hohle Fels, uma estatueta de Vênus esculpida com mármore das presas de
um mamute. Muitas pessoas têm objeções quanto ao nome Vênus; Vênus é a deusa do amor, da beleza, ela é o objeto do olhar
e desejo masculino, e isso é muito simplificador. Quando as fotografias dessa
escultura foram publicadas no jornal Nature,
usaram a legenda “Pin-Up Paleolítica”. O Huffington Post publicou um artigo
sobre a escultura com o título “Pornô Pré-Histórico”.
A primeira arte que existiu foi a
megafauna e a megafêmea, pois isso representava a vida. As sociedades agrárias
(período neolítico), também produziram uma grande quantidade de estatuetas. Em
Catalhoyuk, o mais antigo assentamento agrário já escavado, foram encontradas
esculturas, e 95% era constituída por figuras animais e 5% por fêmeas humanas.
É o mesmo cenário: a megafauna e a megafêmea. Alguns milhares de anos à frente,
no Egito, já com uma forte organização patriarcal e militarista, continuávamos
a pintar a megafauna e a megafêmea, com representações da Deusa Hathor. Na
Grécia Antiga, a megafauna e a megafêmea são representadas pela Deusa Artemis.
Quando chegamos ao cristianismo, ainda podemos ver a megafauna e a megafêmea
sendo representadas na arte, mais comumente através de Maria e os animais do
estábulo (é mais fácil encontrar imagens de Maria sem José do que sem animais).
(Acima, na ordem de cima para baixo: Vênus de Hohle Fels, Deusa Hathor e Deusa Artemis.)
Loren Cordain, um especialista em
nutrição Paleolítica, usa a imagem de um campo de futebol para explicar o tempo
de existência da terra. O período paleolítico é tudo até o último meio metro. O
último meio metro é quando a agricultura começa, e o último 1/5 de centímetro é
a era industrial. Ou seja, no último meio metro é onde o desastre começa. Em
sete lugares ao redor do mundo, as pessoas começam a mudar sua maneira de viver
completamente para uma atividade chamada agricultura.
(Acima: campo de futebol americano.)
Mas o que é agricultura? Em termos brutos, você pega um terreno, remove
toda a vida presente nele, e passa a explorá-lo para uso humano. Isso é agricultura:
limpeza biótica. Isso implica em dois problemas: permite que a população humana
cresça a números incrivelmente altos, ao invés de compartilhar aquela terra com
milhares de outros animais que precisam de um lar. Então, é basicamente uma
maneira legal de dizer “extinção em
massa”. O outro problema é que estamos destruindo a camada superficial do solo,
(camada superior da terra, em que as plantas crescem, um material preto ou
marrom escuro constituído por uma mistura de restos orgânicos, argila e partículas
de rocha), que é a base da vida.
(Acima: localidade no Iraque onde, primeiramente, existia uma floresta, depois, uma plantação. Hoje, é assim.)
Com exceção das últimas 46 tribos
de caçadores-coletores, a raça humana se fez dependente de uma atividade que
está destruindo o planeta. Toby Hemenway, um autor de livros sobre
ambientalismo, chama agricultura sustentável
de um paradoxo. E Richard Manning, também ambientalista, diz: “Nenhum
biólogo, ou qualquer outra pessoa, poderia desenhar um sistema de regulações
que faria a agricultura ser sustentável. Agricultura sustentável é um paradoxo.
A agricultura se baseia num sistema antinatural de cultivos anuais em
monocultura – um sistema que a natureza não sustenta ou pelo menos não
reconhece como natural. Nós o mantemos com arados, petroquímicos e toneladas de
subsídios porque não há outra maneira de sustentar isso.
Nos sete centros onde a
agricultura começou, existe um modo de vida chamado civilização: pessoas vivendo em assentamentos grandes o suficiente
que requerem importação de recursos. O padrão da civilização é o mesmo: um
centro de poder inchado com colônias ao redor, e o centro extrai o que quiser e
leva para o centro de poder.
Sociedades agrícolas sempre acabam militarizadas por três
motivos:
- A agricultura produz um excedente e também
requer um excedente; se pode ser guardado, pode ser roubado, e alguém precisa
proteger esse excedente, e pra isso servem os soldados.
- ·
Imperialismo: já que a agricultura é
inerentemente destrutiva, eventualmente há de se conseguir mais terras, mais
solo, mais água, mais árvores. Existe uma classe de pessoas cujo trabalho é
simplesmente fazer guerras, sair e buscar as coisas que o centro de poder
precisa. Agricultura torna isso possível, ao mesmo tempo em que torna isso
inevitável.
- · O terceiro é a escravidão. Alguns dos recursos
que o centro de poder precisa são humanos e sua mão-de-obra. A agricultura é um
trabalho exaustivo; para que alguém tenha tempo livre, é necessário escravos.
Nós perdemos a memória cultural disso, pois temos usado máquinas nos últimos
150 anos para fazer esse trabalho. Mas no ano de 1800 (começo da era do combustível
fóssil), três quartos completos de pessoas no planeta estavam vivendo em algum
tipo de escravidão, seja por dívidas ou simplesmente trabalho forçado.
Nos anos 1950, o
planeta já não tinha mais a camada superficial de solo, e o que deveria ter
acontecido é o colapso que é sempre parte das civilizações; civilizações duram
o período de tempo pelo qual seu solo dura que é normalmente entre 800 e 1500
anos. Em vez disso, a Revolução Verde aconteceu, que era baseada em combustível
fóssil. São necessárias 9 calorias de energia para fazer 1 caloria de comida:
um sistema completamente insano. É necessário o equivalente de 3 a 4 toneladas
de TNT por hectare para uma fazendo americana moderna. O estado de Iowa,
sozinho, utiliza o equivalente a 4.000 bombas Nagasaki por ano em atividades
agrícolas.
Nutrição
deficiente, trabalho extenuante, esgotamento de continentes inteiros, a
destruição ecológica é gigante, extinção em massa, população permanentemente
crescente e esgotamento contínuo de recursos.
Agora, capitalismo: o segundo sistema que está
destruindo o planeta. O capitalismo pega
criaturas vivas em seus lares, os transforma em propriedade privada, e
então os converte em commodities (a
tradição mais próxima é mercadoria)
mortas e as acumula em riqueza. É um esquema de pirâmide da morte.
(Acima: representação da 'pirâmide da morte'.
O único problema com essa imagem é que
na camada de baixo, na verdade deveriam estar as mulheres e as meninas. Se uma
feminista desenhasse esse esquema, seria assim:
Ou seja, um cara grande
sentado no cara pequeno que está sentado na mulher, que está trabalhando no
sustento básico da vida, que mantém todos vivos. “A mulher é a proletária do proletário”.
Daqui, assumimos
que o capitalismo é um problema. O objetivo do capitalismo é a criação de
riquezas; não é prover as necessidades humanas. Em primeiro lugar, é um sistema
novo; tem cerca de 300 anos. O que move a economia capitalista é uma busca
incessante por mais riqueza, o que significa por mais oportunidade de investimento.
Então, as pessoas ricas têm capital; elas querem investir em algo que gere mais
lucro para elas. A única maneira de fazer isso é se existir um número sempre
crescente de oportunidades de investimento. O que isso quer dizer é que as
pessoas precisam consumir mais; todo ano elas precisam consumir mais para que
existam mais oportunidades de investimento para os ricos. Na verdade, se a
economia não crescer cerca de 3% ao ano, ela quebra. Outra forma de dizer isso
é que todo o consumo acontecendo no planeta precisa dobrar a cada 20 anos. Porém, o planeta terra tem 197 milhões de
milhas quadradas, e nada mais; a terra é finita, e é impossível existir
crescimento infinito num planeta finito. Esse sistema é insano e vai consumir a
terra até a morte.
“As forças do
mercado e a motivação do lucro (motivação das empresas que operam de modo a
maximizar seus lucros) são péssimas em distribuição de bens e investimentos de
acordo com necessidades humanas”, diz Ted Trainer no livro Towards a Sustainable Economy. O que isso quer dizer é: seja lá o
que as pessoas que detém capital querem, é para isso que os investimentos serão
destinados. Portanto, os ricos estão fazendo decisões para todos nós, sobre
inúmeros assuntos, como alimentação, moradia, cuidados médicos, etc. Se fossemos
priorizar necessidades como comida, abrigo e saúde para a população, um
planejamento justo e racional com essas finalidades seria completamente
contrário às forças do mercado. Na verdade, várias atividades muito lucrativas
teriam que ser paradas. Por exemplo: na Índia, existem muitos hectares de terra
sendo usados para produzir tulipas, que são vendidas para a Europa. Nesse mesmo
país, existem muitas pessoas passando
fome. O negócio de tulipas é muito lucrativo, muito mais lucrativo do que
produzir comida para pessoas famintas. Se você se importa com direitos humanos,
você teria que parar de enviar tulipas para a Europa, redistribuir as terras e
deixar que as pessoas famintas cultivem seu próprio alimento. Isso é porque o
capitalismo é um problema tão sério: ele é, por definição, a busca pelo lucro,
mesmo que essa busca passe por cima de pessoas, animais, florestas, lagos e,
basicamente, o planeta inteiro. 22 mil crianças morrem todos os dias por falta
de comida e água, e isso só não é mudado pois alimentar essas crianças não
produz nenhum lucro, portanto, os investimentos não são direcionados para isso.
Fato: existe uma gigantesca disparidade econômica no mundo, e o capitalismo só
aumenta essa disparidade.
O terceiro sistema
é o patriarcado. O patriarcado pega
serem humanos biologicamente machos e cria uma classe de pessoas chamadas homens, que são feitos pela socialização à masculinidade, e esse processo
transforma uma criança num menino e, eventualmente, num homem. E isso requere
uma certa psicologia. A masculinidade requer três coisas: entitlement (a tradução mais próxima é legitimidade, como um direito
de ter ou possuir algo), adormecimento emocional e uma dicotomia entre o eu e o outro. E, claro, o primeiro outro
desprezado são sempre as meninas, e é por isso que meninos usam esse
adjetivo para ofender seus amigos: “você age como uma menininha”, “você joga
como uma menina”, ou em inglês, onde pussy
(vagina) é comumente usada como xingamento: “you act like a pussy” se
traduz, literalmente, para “você age como uma buceta”. Uma vez que esse
processo está em curso e a categoria de “mulher nojenta” foi criada em seus
cérebros, você pode substituir isso em uma sociedade hierárquica; qualquer
grupo que precisa ser subordinado pode preencher a lacuna ‘mulher’. E a
masculinidade, obviamente, é essencial para qualquer cultura militarizada: essa
é a psicologia necessária nos soldados: você somente matará se o impulso humano
de cuidar foi reprimido ou suprimido e esse processo psicológico de dicotomia
entre o eu e o outro estiver enraizado no homem.
É central para a
masculinidade a violação: homens se tornam homens de verdade rompendo
barreiras. E para essa psique de entitlement,
o único motivo pelo qual o “não” existe é porque é sexualmente excitante
ultrapassá-lo a força. Essa é a genialidade do patriarcado; ele não apenas
naturaliza a opressão; ele sexualiza atos de opressão. Ele erotiza dominação e
subordinação, pega essa erotização de dominação e subordinação e
institucionaliza-a em masculinidade e feminilidade. Naturaliza, erotiza e
institucionaliza. A genialidade do feminismo é que nós descobrimos isso.
Feminilidade é
apenas o conjunto de comportamentos que são, em essência, submissão
ritualizada. A socialização feminina é um processo de repressão psicológica, e
esse processo se chama aliciamento e cria uma classe de vítimas
obedientes/complacentes. Através da história, essas práticas incluíram
deformação de pés (aconteceu no oriente médio, onde mulheres eram obrigadas a
usar sapatos extremamente pequenos para seus pés, pois era algo feminino e
obrigação das mulheres) e mutilação genital feminina (acontece na Ásia e na
África, e o objetivo é tornar fisicamente impossível que meninas e mulheres
sintam qualquer tipo de prazer no ato sexual, pois seu único papel é de
incubadora humana). A feminilidade, na verdade, é apenas a psique traumatizada
demonstrando aquiescência. Isso não e natural, não é criação de Deus. É um
sistema social bruto e corrupto.
"Não se nasce mulher; torna-se."
- Simone de Beauvoir
“Tem se tornado
comum em alguns grupos/coletivos de ativismo noções de pós-modernismo, e isso
inclui a ideia de que gênero é, de alguma forma, um binário. Gênero não é um
binário. Gênero é uma hierarquia. É global em alcance, sádico em prática e
assassino em realização. Assim como raça, assim como classe. Gênero demarca as
barreiras geopolíticas do patriarcado – que quer dizer que nos divide ao meio.
Esse meio não é horizontal – é vertical. E, caso você tenha perdido essa parte,
homens estão sempre no topo.” Disse Lierre Keith, na conferência RadFem Reboot,
em 2012.
Gênero dita quem
pode ser humano e quem pode ser machucada. E isso precisa ficar bem claro
porque os homens sabem do que são capazes; eles sabem do sadismo que
construíram em seu sexo, então o que dizem uns aos outros é “faça isso à ela,
não à mim, o ser humano; à ela, o objetivo, a coisa”. Então, eles precisam
deixar bem claro, tanto visual quanto ideologicamente, quem é ela. E é muito fácil fazer isso se você
estabelecer que “Deus a fez assim”, ou “a natureza a fez assim”, ou “ela a fez
assim, ela pediu por isso”. Porque nós sempre pedimos. O estupro, o
espancamento, a pobreza, a prostituição; até o assassinato. Nós pedimos por tudo isso. Todas essas
práticas são chamadas, por Andrea Dworkin (escritora feminista radical norte
americana), de barricada do terrorismo
sexual, e o gênero é o que demarca esses limites. As mulheres vivem dentro
da barricada, os homens vivem fora da barricada. Na verdade, os homens
construíram essa barricada, punho por punho e foda por foda. São exatamente
essas práticas violentas de violação que constroem uma classe de pessoas
chamadas ‘mulheres’; é isso que homens fazem para nos ‘quebrar’ e para nos
manter ‘quebradas’. Isso é gênero: as que são quebradas e os que as quebram.
Aqui, nesse ponto,
é onde esses três sistemas: civilização, capitalismo e patriarcado se fundem;
nesse imperativo masculino de violência, e esse imperativo envolve violar os
limites sexuais das mulheres e meninas, envolve violar os limites culturais e
políticos dos indígenas, envolve violar limites biológicos de rios e florestas,
envolve violar os limites genéticos de outras espécies (ex.: salmão
transgênico) e, ultimamente, qualquer limite pertencente ao planeta terra. Você
junta tudo isso e tem um sistema e uma cultura sociopata. O entitlement, o sadismo, a cobiça infinita
por dominar, nada disso tem um fim. O que estamos alcançando é um completo
colapso biótico, começando com os menores de nós: as populações de plankton
estão entrando em colapso porque os oceanos estão muito ácidos por causa de
todo o carbono. Os planktons, apesar de muito pequenos, são responsáveis por
cerca de 2/3 de todo o oxigênio existente no planeta. Portanto, se o oceano
entrar em colapso, nós entramos em colapso.
O que fazer?
Existem alguns conceitos importantes para organizar um movimento sério de
resistência. Primeiro: movimentos de resistência não simplesmente acontecem. Movimentos levam horas de organização
através de vidas inteiras, ás vezes, gerações. Exige uma dedicação tremenda,
habilidades estratégicas, muita coragem. Acreditar que resistência irá
magicamente acontecer nos condena às margens, esperando por uma revolução que
jamais chegará.